O IV Congresso Brasileiro de Missões (IV CBM) foi realizado de 10 à 14 de outubro de 2005, em Águas de Lindóia, SP. Seu alvo era indicar à Igreja Brasileira quais são os atuais desafios, tendências e possibilidades. No total foram abordados 57 temas ao longo dos 4 dias de congresso. Focamos neste livro apenas o conteúdo das plenárias.

Aprendemos com Henrique Dias, mas conhecido como Henrique Terena, que os indígenas estão tomando para si a responsabilidade de treinar e enviar indígenas. Quer isso seja para que voltem às suas próprias aldeias, quer seja para irem a outras etnias.

É edificante aprender sobre o quanto vem sendo realizado pelo centro de treinamento em Chapada dos Guimarães. O alvo era treinar e enviar até 2009 líderes indígenas para 35 etnias. Contudo, esta meta já havia foi atingida em 2005. Sendo assim, esperam treinar e enviar até 2009 obreiros para 40 etnias.

Os princípios por trás destes esforços são: consciência de que haverá diante do Trono do Cordeiro pessoas de todas as raças, tribos, nações e línguas. E isto envolve missões e treinamento de líderes; é bíblico formar líderes para que possam pastorear o rebanho, ou para que sejam missionários transculturais; mesmo que os indígenas também precisam aprender a cultura de um  outro indígena, já estão acostumados a vida na selva. A expectativa do centro de treinamento em Chapada dos Guimarães é estar em parceria com a Igreja Brasileira, ou com a Igreja de Jesus em outras nações. Juntos terminarão a tarefa de evangelização da Amazônia.

A evangelização das nações indígenas passa também pela preocupação quanto ao status dos indígenas, enquanto habitantes no Brasil. O manifesto do Conselho de Pastores e Líderes Indígenas (CONPLEI), liderado por Henrique Terena. Assim como o manifesto da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), encontram-se como apêndice deste livro. Ambos manifestos proferidos no IV CBM indicam que o congresso procurou conciliar fé e obras, tornando o evangelho relevante ao seu contexto. Espera-se que a obra missionária entre os indígenas, também os leve a ter os mesmos direitos humanos que os demais brasileiros. Veja o conteúdo dos manifestos no apêndice.

Ronaldo Lidório por sua vez nos lembra que há dois valores pós-modernos e pós cristãos os quais impendem o avanço missionário. O hedonismo e o narcisismo. O hedonismo nos leva a viver para o nosso prazer, mesmo que na prática isso seja estar em pecado. O narcisismo valoriza constantemente o belo e estar debaixo da atenção dos holofotes. Exclui-se neste contexto a teologia do sofrimento. A proclamação do evangelho não ocorrerá se nos deixarmos estar sob a influência destes dois valores pós-modernos.

Lidório explana sobre três características do processo de proclamação do evangelho. Primeiro, Deus é a força propulsora da proclamação. Ele é soberano. Senhor da história. Controla o universo, mas também se preocupa com os detalhes de nossa vida. É Ele que chama para sua obra. Quem abre e fecha portas. É poderoso para cumprir suas promessas, por isso, em missões podemos esperar os resultados.
Segundo, a motivação humana é a obediência. Missões não é necessariamente prazeroso. Precisa haver esforço (Rm. 15:20). Precisa haver entrega. Paulo expressou isso ao dizer: “ Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1 Coríntios 9:16). Literalmente disse que seria maldito se não pregasse. Ou seja, mesmo quando não há prazer temos que pregar o evangelho, o fazendo em obediência a Deus.
Terceiro, a prioridade de Deus para proclamação é aquele que nunca ouviu. Nas palavras de Paulo: “esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho, não onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio; antes, como está escrito: Hão de vê-lo aqueles que não tiveram notícia dele, e compreendê-lo os que nada tinham ouvido a seu respeito.” (Romanos 15:20-21). Este que nunca ouviu pode estar perto ou próximo. Mas é a prioridade de Deus.

David Ruiz nos lembra que a natureza missionária da Igreja envolve fazer discípulos de todas as nações (Mt. 28:18-20. Destacou que a pedra que salva é Jesus. Ele é o fundamento de edificação e porta da Igreja. Contra esta o inferno não prevalecerá, pois não prevalece contra Jesus.

As chaves do reino recebidas por Pedro e a Igreja, envolve trazer pessoas de todas as culturas para o reino de Deus. Em Atos isso é visto quando Pedro evangeliza judeus (At. 2). Quando o evangelho chega até Judéia e Samaria (At. 8:14-17). E, por fim, aos gentios a partir de Atos 10. Para tal tarefa, a Igreja precisa saber que custa mais recursos e tempo ir atrás da ovelha perdida do que preservar as 99 salvas. Somente com mais dedicação e compreensão faremos discípulos de todas as nações (Mt. 28:18-20). Por fim, quando o Senhor voltar procurará os frutos. O importante é não sermos como a figueira que só tinha folhas.

Luis Wesley explana sobre o surgimento do secularismo e a coexistência deste com o misticismo na América Latina. Aborda os seis eventos que culminaram no estabelecimento do secularismo. Assim como as características de uma pessoa secularizada. Os seis eventos são: renascença; reforma protestante; nacionalismo que resultou nos países; ataques à Igreja pela sociedade moderna, por meio de pessoas como Newton, Copérnico, Marx, e Freud; iluminismo e urbanização. Neste contexto, sugere como alcançar pessoas seculares. Demonstra que tanto em outras regiões, como no Brasil, o secularismo não apaga a fome de Deus. As pessoas ainda procuram o sagrado, o místico, o sobrenatural e Deus. Mesmo que a urbanização tenha criado lugares que não promovem o surgimento de comunidades.
Demonstra que secularismo e misticismo estão presentes no Brasil. A Igreja precisa ministrar de maneira relevante, tendo em mente estas duas realidades, aparentemente excludentes, mas que convivem lado a lado na América Latina.

Bráulia Ribeiro destaca como os indígenas precisam encontrar Jesus como o vemos nas Escrituras. Isto é, de maneira vivencial e experimental. Não devemos apresentá-lo de maneira abstrata por meio da apresentação de dogmas abstratos da fé. Jesus precisa atuar na vida dos indígenas, como atuou na vida de tantos necessitados em seus dias na terra. Ressalta à necessidade de nos preocupar com os direitos humanos dos indígenas, pois não devem ser tratados como cidadãos de segunda classe. Devem possuir direito a escolha de religião, educação, saúde e liberdade de locomoção.

Timóteo Carriker ensina que a natureza missionária da Igreja é derivada da promessa feita Abraão (Gn. 12:1-3), Moisés (Ex. 19:5-6) e David (2 Sm 7:12-16, Sl 72:8). A promessa se referia ao fato que Deus teria para si um povo. O NT esclarece que esta promessa se cumpre em Jesus, por meio de sua Pessoa, obra e vitória sobre a morte, pecado e o diabo. A natureza missionária da Igreja é vista conforme esta procura trazer para Deus, por meio de Jesus, pessoas de todas as raças, tribos, línguas e nações. Este processo produz para Deus um povo, formado por judeus e gentios.

Quanto a este assunto, a natureza missionária da Igreja, o Dr. Shedd demonstra o quanto esta natureza tem sua fonte, modelo e continuação na Missão de Jesus Cristo. Pois a Igreja veio a existir por meio dele. Explana sobre a Grande Comissão e sobre a primeira equipe missionária nas Escrituras. Com isso aprendemos que avanço do Reino de Deus sobre a terra é resultado da obra missionária.

Ariovaldo Ramos aborda sobre o modelo de Igreja como consta no NT. Esta é composta de dois ou três reunidos no nome de Jesus. Estes são guiados pelo Espírito, portanto, são como o vento ao ouvirem diretamente a voz de Jesus. Todos são servos, mesmo os líderes. Sendo assim, é difícil organizar este tipo de Igreja, uma vez que seus membros ouvem Jesus diretamente e são guiados por Ele. Nos lembra, que os apóstolos começaram seguindo o modelo da sinagoga, com presbíteros e diáconos. No segundo século surge a hierarquia de bispos, pastores e diáconos. A Reforma manteve a hierarquia até então existente. No Brasil tem havido muitos modelos coronelistas. Contudo, a Igreja de Jesus é guiada e edificada por ele. Contra esta Igreja as portas do inferno não prevalecem. Tendo relacionamento direto com Jesus e guiados pelo Espírito Santo devemos marchar contra os portões do inferno.

Edison Queiroz faz um contraste entre as igrejas de Jerusalém e Antioquia, para demonstrar que igrejas missionárias devem ser alicerçadas na Palavra, dar prioridade a missões e fazer diferença no mundo ao redor. Salienta os problemas práticos que tem impedido pastores a não ser envolver em missões. Demonstra que a força capacitadora vem do Espírito Santo.

Paul Freston aborda o assunto sobre a exportação da religião evangélica brasileira. Esta ocorre no contexto da natureza global do Cristianismo, e por ter havido mudança no centro de gravidade do cristianismo, do norte para o sul. Desta maneira, volta-se ao início do Cristianismo, quando os pobres de regiões periféricas evangelizaram os grandes centros e os ricos. Constatou que dos dois mil e quinhentos missionários brasileiros, 80% vão para lugares onde há semelhança cultural e lingüística. Contudo, 18% vão para a janela 10-40. Ainda prevalece um número maior de mulheres, mas o numero de casais no campo cresce também. A curva de crescimento ocorre em função do Brasil não se ver mais como confins da terra, mas como centro de envio.
Há também exportação da religião evangélica como resultado de igrejas de brasileiros na diáspora. Normalmente esta são motivadas por razões econômicas, tem havido muitas divisões e problemas morais. Não se caracterizam por fazer missões ou por evangelizar os nacionais.

George Verwer enfatiza baseado na parábola do Bom Samaritano que religião sem atos de amor não faz sentido. O bom samaritano era o discriminado que na verdade servia a Deus, parava para acudir, gastando tempo e dinheiro com o necessitado a beira do caminho.  Neste contexto, George sugere que tenhamos como prioridade na nossa lista de oração, os trinta países com menos de um porcento de evangélicos. Entre eles cita Coréia do Norte, Tibet, Afeganistão, Iraque, Arábia Saudita, Yemen, Turcomenistão, Chechenia, Líbia e Sudão.
George nos lembra que a beira do caminho, esperando nossa ação missionária, temos sete grandes desafios: crianças carentes ao redor do mundo; mulheres em sofrimento; pessoas em péssimo estado de pobreza; aidéticos; crianças abortadas; problemas ecológicos e em especial a falta de água em muitos lugares do mundo.  
George Verwer enfatiza que ação e proclamação devem andar de mãos dadas na prática missionária.

Valdir Steuernagel finaliza nos desafiando a ver como Deus vê. É importante que diante das necessidades como pobreza, violência, lares disfuncionais, desigualdades, desmatamento da Amazônia e outras necessidades, ver como Deus o faz. É difícil contemplar situações de miséria e dificuldade. Porém, Deus vê, ouve o clamor, contempla estas tristes realidades e quer supri-las por nosso meio. Deus deseja que sejamos seus olhos, braços e povo em ação. Não basta somente saber, temos que ver, sentir e agir como Deus o faz. Ou seja, mesmo que pensemos globalmente, temos que agir localmente, como servos atuantes de Deus no mundo.

Contudo, tal ação precisa ser com pertencimento. Ou seja, com identificação com as necessidades e com o necessitado. Ao mesmo tempo que a identificação não nos faz igual com o pecado existente na sociedade. Ou seja, mesmo que identificados, expressando amor, isto não pode ser a custa de perdemos o propósito como cidadãos do Reino de Deus, pela falta de santificação. Temos que ser ativos na proclamação e na prática missionária promovendo mudança. Contudo, salienta que nossa prática missionária, nacional e internacional, não pode ignorar a três grandes crises mundiais: social, desemprego e ecológica.

A leitura destes capítulos que desenvolvem os temas das plenárias do IV CBM, nos leva a perceber alguns dos desafios, tendências e possibilidades. Conjuntamente nos indicam o caminho a seguir e possibilidades de envolvimento em missões. Confiamos que ao ler o Senhor conduzirá seus passos quanto ao rumo a seguir em missões.

Veja mais detalhes na avaliação do IV CBM feita por Eunice Zillner.
      


Silas M. Tostes
Coordenador do IV Congresso Brasileiro de Missões
Presidente da Associação de Missões Transculturais Brasileiras
Membro da Comissão de Missões da World Evangelical Alliance