1. PREPARO PROFISSIONAL PARA SERVIR EM CAMPOS DE ACESSO RESTRITO

PREPARO PROFISSIONAL PARA SERVIR EM CAMPOS DE ACESSO RESTRITO D. César
Maria fez nutrição numa boa faculdade. Paralelamente, tentando driblar a falta de tempo, aprimorou seus estudos de inglês, mas também sempre reservou tempo para se engajar no movimento estudantil cristão. Depois fez pós em saúde pública e, durante as poucas férias que tinha, orientada por seu pastor e pela secretária de missões da igreja, conseguiu aproveitar o tempo livre para fazer um curso de missões transculturais. Depois de dois anos de experiência profissional no Brasil, Maria procurou uma agência missionária e se apresentou para ir e servir em sua área. A agência deu a ela seis opções de lugares para onde ela poderia ir – todas as opções em países de acesso restrito a missionários. Ela escolheu um país no sul da Ásia e hoje está trabalhando num projeto de desenvolvimento comunitário na prática da missão integral. Ela trabalha nas áreas de avaliação nutricional, elaboração e acompanhamento de cardápios no Centro de Recuperação Nutricional da comunidade, que presta assistência a crianças desnutridas e suas mães, e ainda participa de uma equipe multidisciplinar na pesquisa de novas alternativas alimentares para a população local.
Fernando terminou muito bem o segundo grau, mas sua paixão sempre foi o futebol. Na ansiedade de logo ir para o campo missionário, fez um curso rápido para se tornar treinador (não o curso da FIFA). Em três meses, sua agência o conheceu e enviou para o campo. Como seu certificado não era reconhecido internacionalmente e ele ainda não tinha uma proposta de trabalho, Fernando acabou tendo muitos problemas. Seu visto de turista vencia a cada três meses e as pessoas – muito curiosas naquele contexto cultural – o atormentavam com a pergunta frequente sobre o que ele estava fazendo ali, já que não tinha ainda conseguido um trabalho como treinador de futebol.
Estas duas estórias, provocativamente contrastantes, ilustram um pouco do que tem acontecido no movimento missionário entre profissionais em missão. O sucesso ou o fracasso no campo dependem muito do preparo profissional anterior.
Os líderes mais experientes em missões concordam que um bom preparo profissional abre muitas portas e capacita o profissional missionário a exercer um trabalho produtivo no campo, transcultural ou não. Além disso, a história de missões é cheia de exemplos que ilustram isso. Por exemplo, os moravianos e a escola de Basiléia ilustram bem as vantagens de quem harmoniza o serviço prático ao próximo com o testemunho sobre Jesus.1
Mas o que significa um bom preparo profissional?
1. Escolha da profissão
Tudo começa na escolha da profissão. Não é fácil, principalmente diante das inúmeras opções do mercado atual de profissões, aliado à falta de autoconhecimento, experiência e maturidade, próprios da adolescência.
Alguns estudantes secundaristas, com o sincero desejo de servir a Deus em missão, nos perguntam qual profissão é mais requerida no campo. Eles querem tanto ir, que às vezes escolhem a profissão pela demanda do campo, e não tanto pelas habilidades próprias.
A pergunta deveria ser outra: que profissão mais se adéqua às minhas capacidades, habilidades e possibilidades? O que eu gostaria de fazer para contribuir com a sociedade?2
Cremos que Deus dá habilidades e capacidades para cada pessoa de forma única. E cada pessoa vive em um contexto único de filiação, condição econômica, localização geográfica – uma séria de fatores que vão determinar, pelo menos em parte, em qual faculdade ou universidade esta pessoa poderá estudar, e quais cursos lhe serão acessíveis.
Como Deus criou o trabalho humano, e Ele mesmo trabalhou, deixando-nos o exemplo, temos certeza de que quase todas as profissões e tipos de trabalho humano são honrados por Ele e úteis no mandato cultural – o cuidado com a criação.3 Temos várias profissões exemplificadas na Bíblia: agricultor, pastor de ovelhas, boiadeiro, empregado doméstico, administrador, estrategista, juiz, músico, artista plástico, ferreiro, ourives, artesão, carpinteiro, construtor, político, pescador, costureiro, comerciante, pessoa de negócios… até “fazedor de tendas” – que, melhor traduzido, deveria ser feitor ou fabricante de tendas.
Nem só de enfermeiros e professores de inglês vive o campo missionário… Na Interserve, agência com grande número de profissionais em missão, há pessoas servindo em um leque de cerca de 50 profissões. Isso é muita coisa! Há muitas áreas para servir. Até mesmo a área de direito… (Os estudantes de direito sempre nos perguntam, já esperando a negativa, sobre área de trabalho para eles no campo missionário… Se o estudante se especializar em direito internacional, Deus pode usá-lo em várias partes do mundo e em posições estratégicas, importantes para a humanidade. Há advogados cristãos trabalhando também na área de defesa dos direitos humanos, empenhados na busca de justiça e defesa de pessoas exploradas, abusadas, oprimidas, tanto pela cultura em que vivem quanto pelos sistemas religiosos totalitários, onde se encontra a igreja perseguida.)
Concluindo, a questão prioritária na escolha profissional não é qual a área mais necessária no campo, mas, sim, qual a área em que Deus me capacitou para servir.
2. Preparo profissional
Seria “chover no molhado” gastar tempo nesta parte. Há muita coisa bem melhor por aí, indicando como o estudante deve se tornar um bom profissional: ingressar em uma boa faculdade, dedicar-se aos estudos, manter um bom coeficiente de rendimento, estudar inglês e informática, candidatar-se a bolsas de aperfeiçoamento, fazer estágios, talvez até um intercâmbio em outro país etc.
Segundo Ledo, independentemente da área em que vá atuar, espera-se do profissional as seguintes características:4
• Conhecimento de informática e domínio de um segundo idioma;
• Constante preocupação em aprender cada vez mais, procurando a especialização no que faz;
• Competência para identificar e resolver problemas;
• Habilidade para comunicação;
• Visão critica e ampla das atividades que desempenha;
• Lógica de raciocínio;
• Habilidade para trabalhar em grupo.
Tudo isso é muito importante mesmo. Mas o estudante cristão, que deseja servir futuramente em missão, não pode seguir a correnteza e zelar “apenas” pelo lado profissional. Carreira virou um deus para muita gente hoje. Se o bom desempenho estudantil e profissional, assim como a carreira, tomar o lugar prioritário na vida de um vocacionado, ele poderá esquecer seu compromisso missionário de longo prazo e passar a viver para a profissão. Isso é um risco muito grande.
3. Caminhar com um mentor
Para não sucumbir ao risco de endeusar a profissão, e tornar-se escravo dela, seria ideal para o estudante cristão ter um mentor. Este mentor poderia ser uma pessoa madura, que já passou da fase de estudante e dos primeiros anos de exercício da profissão, que tem ampla visão de reino, boa compreensão da missão integral e das necessidades do campo. Sempre que possível, deve ser alguém da mesma área do “mentoriado”.
Este mentor deveria se encontrar esporadicamente com seu discípulo, orar e conversar sobre a vocação e sobre o preparo profissional, mas também sobre as outras áreas da vida. Mesmo um encontro anual pode fazer grande diferença! O mentor deve então lembrar amorosamente o estudante ou jovem profissional “aquele” compromisso missionário feito anos atrás, no ardor da adolescência ou juventude. Quantas pessoas têm retornado à missão por causa de um “toque” carinhoso de um amigo desse tipo! E quantos têm abandonado o compromisso inicial, até mesmo a fé, por falta de alguém que o encoraje a se manter no Caminho!
Tudo indica que Paulo foi uma espécie de mentor para Priscila e Áquila. Eles, por sua vez, ajudaram Apolo a “entrar nos trilhos”. Paulo e o casal Priscila e Áquila tinham o mesmo ofício e o mesmo amor pela expansão do reino. Um estudo mais detalhado da vida do casal mostra que, como Paulo, eles também acabaram viajando pelos campos e apoiando as diferentes igrejas por onde passavam.5 Paulo imprimiu seu caráter neles – caráter que, por sua vez, Cristo havia imprimido em Paulo. Isso nos lembra a passagem paulina sobre o discipulado e a importância de ser e ter um mentor na caminhada cristã: “E o que de minha parte ouviste [...], isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (2 Timóteo 2.2).
Como exemplo, conhecemos um engenheiro enviado por uma agência missionária que está servindo como diretor de uma empresa em um país de acesso restrito. Seu mentor (digamos assim… talvez ele nem saiba que é seu mentor!) é uma pessoa de caminhada missionária mais longa e também é um engenheiro – tem a mente de engenheiro, pensa como engenheiro. Hoje este engenheiro no campo tem toda qualificação para também se tornar um mentor de algum engenheiro mais novo, que esteja no início da caminhada missionária.
4. Preparo paralelo
Temos visto que o melhor profissional em missão é aquele que tem a mente aberta, vida de comunhão e serviço na igreja local, sabe se relacionar com humildade e amor, tem coração de servo.
Todas essas qualidades envolvem um preparo anterior, que deve começar muito antes, na família, na igreja local e na comunidade. Até mesmo as empresas seculares têm procurado profissionais cujo currículo mostra não apenas a dedicação à profissão, mas engajamento político, social e comunitário, interesse em hobbies e em outras áreas, não relacionadas ao trabalho da empresa.
Em relação à igreja local, poucas igrejas possuem um programa voltado para vocacionados para missões – menos ainda, para os vocacionados que desejam servir com suas profissões e habilidades no campo missionário. É interessante que as igrejas prontamente apoiam, acompanham, testam, sustentam e enviam os vocacionados para o ministério pastoral. Mas isso raramente acontece com os “demais” vocacionados. É importante iniciar um programa desse tipo. A própria igreja pode indicar o mentor para o seu vocacionado e dar as diretrizes básicas para testar sua vocação e prover o melhor preparo.
Outro preparo fundamental é o preparo em missões, ou preparo missiológico. É um verdadeiro desafio oferecer um modelo de preparo missionário para o profissional, de modo que ele consiga conciliar o tempo com as diversas áreas de sua vida, como preparo acadêmico, trabalho profissional, igreja, família etc. Mas é possível e importante.6
O aspirante a profissional em missão precisa reservar este tempo precioso para se preparar em missões, optando pelo modelo que melhor se adéque às suas atividades.
Cremos que a melhor opção é um curso de missões presencial – nada substitui a vivência num ambiente de relacionamento com colegas e professores, já que o aprendizado não é apenas um processo intelectual, mas relacional, espiritual e de se inspirar em bons exemplos. Na impossibilidade disso, existem hoje outras opções, como cursos a distância e cursos intensivos, estes geralmente em períodos de férias ou feriados prolongados.7
Um líder internacional de uma missão que envia profissionais resumiu assim as características do tipo de pessoa que a agência procura:8
1. Alguém com o coração de servo. Pronto para servir no país debaixo da autoridade e direção dos cristãos nacionais.
2. Alguém com uma visão de mundo abrangente – maior do que a visão circunscrita na igreja local. Uma visão interdenominacional.
3. Alguém pronto para a vida em equipe. Haverá pessoas na equipe que não são ‘do seu jeito’. Uma atitude de prontidão para trabalhar junto, em união, na equipe.
4. Alguém pronto para crescer nas disciplinas espirituais. Haverá tentações maiores quando se está fora da ‘zona de conforto’. Alguém que possui um mentor, a pessoa com quem pode conversar e para quem vai ‘prestar conta’.
Conclusão
A profissão jamais deve ser vista como um disfarce, pretexto ou passaporte para entrar em países de acesso restrito. Por isso o cristão vocacionado deve ser orientado a procurar o melhor preparo possível, tanto acadêmico quanto profissional, e nas diversas áreas da vida. Este preparo integral vai abrir portas, facilitar seu ingresso e serviço sacrificial no lugar onde Deus o chamar para servi-lo.

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