Aos poucos o projeto de cuidar da vida emocional dos missionários em campo transcultural começa a tomar forma. Ainda no Brasil, parecia um sonho muito distante e sem possibilidade de ser implementado. Contudo, Deus tem fornecido as primeiras peças e os cenários necessários para o trabalho. De uma coisa eu já estou bem certa, o campo é bem extenso e há muito serviço aguardando para ser feito nesta área.

Neste momento estou de volta a Cape Town onde desenvolvo os estudos da língua inglesa, grande ferramenta para este projeto, e por bondade de Deus, nesta semana iniciei junto a outros missionários um estudo bem básico da língua francesa. Embora cansada com as tarefas e o ritmo de vida que já tenho até aqui, não quis desperdiçar a chance de me introduzir em mais uma língua muito falada no continente africano. De posse de um bom inglês e um francês pelo menos básico, poderia viajar para vários campos desse continente conseguindo uma boa comunicação com o povo local e os grupos de missionários. Além disso, considero que talvez Deus tenha planos que eu mesma ainda desconheço.

Retornei de Moçambique em 10 de outubro, onde estive por duas semanas bem intensas realizando entrevistas e atendimentos clínicos a missionários de diversas agências, denominações, estado civil e nacionalidade. Foi um tempo bastante produtivo em vários sentidos: (1) para coleta de dados da pesquisa do mestrado, (2) para mim como missionária em estágio transcultural, e (3) para muitos irmãos que ali estão servindo e necessitando de ajuda psicológica, para entender melhor seus processos e se possível arrumar alguns sentimentos e adoecimentos emocionais, fortemente promovidos pelo estresse dos anos de campo.

Ao fim das duas semanas, tendo conversado com pelo menos 25 missionários, oferecido em torno de 30 horas só de atendimento clínico, além das entrevistas, organizado vários dados para pesquisa e feito diversas viagens no trecho que cobre três distritos (Beira, Dondo e Chimoio), muito cansaço físico, emocional e espiritual me acometeu. Contudo, retornei para África do Sul com duplo sentimento: o de missão cumprida dentro do que havia estabelecido como meta e estava ao meu alcance realizar em tão pouco tempo; e um grande pesar por saber que a situação que encontrei naquele pequeno trecho de Moçambique, se repete em diversos campos por este mundo afora.

Um pouco de Moçambique: Esta é a tradicional “capulana” (pano amarrado em forma de saia) bastante utilizado pelas mulheres moçambicanas. Tive que vesti-la para ir ao culto no domingo.

As edificações da cidade da Beira, todas nesse tom amarelo-cinza envelhecido, retratam o descaso do governo e do próprio povo, que após a retirada abrupta dos colonos portugueses em 1975, se apossaram das residências e vivem aglomerados, às vezes em altos prédios, sem sistema de água encanada ou energia elétrica.

Visita da APMT e SAF/ IPB: Ainda no mês de setembro, tivemos a visita de uma comitiva liderada pelo Rev. Marcos Agripino (Diretor Executivo da APMT – Agência Presbiteriana de Missões Transculturais), com o objetivo de visitar os campos e projetos da IPB na África do Sul, Angola e Moçambique e promover novas parcerias. Nesta ocasião tive a rica oportunidade de conversar sobre o trabalho que tenho desenvolvido de cuidado aos missionários, bem como sobre o processo de candidatura e preparo dos mesmos. Estamos orando pela possibilidade de trabalharmos juntos neste intuito.

Meditando sobre o assunto: Apenas uma hora! Era só isso que o Senhor Jesus reclamava de seus discípulos enquanto sofria angústias profundas no Getsêmane, que antecedeu sua crucificação. “E, voltando para os discípulos, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo?” (Mt 26:40). É bem estranho imaginar que o Criador e Rei do universo um dia necessitou da companhia de pessoas para suportar suas angústias. Respeitando as devidas proporções da missão e da natureza de Cristo, humanamente falando, esta me parece uma boa figura quando pensamos em tantos cristãos servindo em campos missionários, em situação de risco, esgotamento e extrema angústia, almejando compartilhar do seu sofrimento ao menos uma hora. Este é um ministério que tenho apreciado muito fazê-lo. É um trabalho difícil e totalmente diferente do que eu costumava desenvolver como liderança de igreja local. Por isso preciso aprender fazendo, não há outro caminho. E tenho mesmo muito que aprender vendo e ouvindo estes preciosos irmãos que se tornaram o meu campo missionário.

Agradeço a todos pelas orações, mensagens enviadas e até pelos telefonemas. Muito obrigada mesmo, tem sido muito importante para me reabastecer e me possibilitar passar por este estágio e ainda fornecer alguma ajuda àqueles que sofrem. Continuem orando pelo andamento do projeto, pelo estabelecimento das parcerias certas, planejamentos para o próximo ano, treinamentos, sabedoria para os atendimentos que realizo e segurança nas viagens. Orem pela minha saúde e vida com Deus. E finalmente, orem para que os recursos necessários cheguem até mim para serem devidamente aplicados na expansão do projeto.

No amor de Cristo Jesus,

Verônica Farias

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